A peça do mês de abril foi…

  A Louça preta

  As cerâmicas populares do nosso País podem dividir-se, de forma geral, entre louças vermelhas ou claras e negras. Esta distinção não decorre da natureza da matéria-prima argilosa empregue na sua produção, mas essencialmente do modo como são cozidas as louças.
Primeiro era necessário amassar o barro, muitas vezes com a ajuda dos bois que o pisavam; depois era preciso ir para a roda e fazer as peças, tarefa normalmente desempenhada pelo homem; a mulher intervinha a seguir para a gogar, ou seja decorar e polir (brunir) com um pequeno seixo do rio, o que a deixava a brilhar. 
As peças depois eram secas lentamente ao ar para perder parte da água que existia no barro. Esta operação podia levar até três semanas, dependendo da temperatura e humidade do ar e exigia vigilância constante, pois a louça tinha de secar devagar e por igual, caso contrário podia estalar ou rachar ficando inutilizada. 
Depois de seca vinha finalmente a cozedura na “soenga”. Para isso era preciso fazer uma grande cova aberta na terra, dentro da qual se encastelavam as peças, pondo as maiores na base e as mais pequenas no topo. 
Este monte de louça em forma de pirâmide era depois parcialmente coberto com lenha e tapado com torrões de terra. A seguir ateava-se o fogo que devia começar por ser lento e fraco para não fazer estalar o barro. 
Durante muitas horas, por vezes toda a noite, o oleiro vigiava o fogo que chegava a atingir os 700º graus e determinava, munido apenas da sua experiência, quando é que o processo estava terminado. Esta era uma decisão muito delicada pois fogo a menos significava peça mal cozida e fogo a mais peça estalada.
A louça era depois desenfornada já preta por ter sido abafada com terra ramos e folhas e com isso ter sido impedida a entrada de oxigénio durante o processo de cozedura. Hoje em dia, a “soenga” foi substituída por fornos a lenha cujo tempo de cozedura é de cerca de 5/6 horas e depois de hermeticamente fechado, o forno só volta a ser aberto passadas entre 7 a 9 horas. Dele saem peças de barro pretas tão brilhantes que por vezes são confundidas com as de estanho, mas afinal o segredo está no brunir com um pequeno seixo do rio. 
Nessa altura era o próprio oleiro que com a louça dentro de sacas às costas ou em cima do burro, ou então ajudado pela mulher que a transportava à cabeça, calcorreava os caminhos que o levavam às aldeias e pequenos lugarejos onde trocava as panelas, os alguidares, os cântaros, as cafeteiras por algumas moedas, ou na maioria das vezes por batatas, centeio, castanhas, azeitonas, figos ou azeite.
A peça que aqui observa é um prato covo de aba larga, brunido de ambas as faces e notavelmente decorado. No exterior da base tem grafitado o número 160, correspondente provavelmente a um preço de venda. Possui as inscrições: “L.B.C./O/O.A.”.Feito em data anterior a 1959. É da autoria de Luís Barbosa Coimbra.
Luís Barbosa Coimbra nasceu no lugar de Gandra, Ossela, a 22 de Abril de 1870. Era filho de um casal de pucareiros, Cândido Coimbra e Maria Eulália. Com 22 anos, a 26 de Junho de 1892, casou com Maria Rosa, também de Ossela, falecida em 1935 e de quem teve pelo menos dois filhos, que não seguiram a arte.
O Luís Pucareiro, como ainda é recordado no lugar, terá vivido sempre no sítio da Devesa, Mosteiro, ficando disso memória a sua casa. Morre a 22 de Março de 1959, sendo enterrado no cemitério da freguesia, em sepultura modesta da qual se conserva ainda a lápide de lousa original. Não se conhece muito da arte do oleiro. Testemunhos orais confirmam registos escritos sobre as covas de barro que existiam no Monte da Cumieira, lugar de Bustelo, ou na Mina das Lousas, a caminho de Castelões, de onde Luís Barbosa Coimbra e porventura outros pucareiros se abasteciam de matéria-prima. De Luís Barbosa Coimbra, ouve-se dizer que cozia no forno a lenha, o que poderá traduzir para Ossela o processo igualmente verificado noutros centros oleiros, em que a cozedura tradicional em “soengas” deu origem à utilização de fornos redutores, com resultados similares no aspeto geral dos artefactos. A comercialização das louças de Ossela fazia-se aparentemente no quadro de um mercado local e regional, nomeadamente através das feiras dos arredores, como Macieira de Cambra ou Oliveira de Azeméis, para onde Luís Barbosa Coimbra obteve em 1921 licença para expor à venda louça preta nos dias de mercado. Nas louças produzidas por Luís Barbosa Coimbra sobressaíam em volume os fogareiros e os púcaros.
Em 1938, o nosso oleiro deverá ter participado na Exposição de Cerâmica das Festas da Cidade de Coimbra, pelo menos com duas peças de maior requinte e primor decorativo, assinadas com as suas iniciais ou a indicação OSSELA O.A. e que as circunstâncias da história terão levado para a Coleção Marciano Azuaga, da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, onde hoje se encontram. Nisto, foi um bom sucessor de seu pai, Cândido Coimbra, premiado com uma menção honrosa na Exposição do Palácio de Cristal do Porto de 1882.
Este prato foi doado pelo Dr. Miguel Elísio Castro.


Informações retiradas de: “A Louça Preta do Museu de Oliveira de Azeméis”, Separata da Revista “Ul- Vária”, Tomo III (1-2), 1996, António Manuel S. P. Silva, modelos.no.sapo.pt/loicapreta.html ewww.santosoficios-artesanato.pt/segredonobrunir.htm.